A carrodependência está nos derretendo


Precisamos falar de modelo de cidades para combater as mudanças climáticas


Texto escrito com colaboração de

Aline Cavalcante - CCMob - e publicado

originalmente no site da Carta Capital

em novembro de 2018


É fácil associar mudanças climáticas à imagem dos polos derretendo e da poluição das chaminés das grandes indústrias – cenas impactantes, mas que ainda parecem muito “distantes” do nosso cotidiano urbano cosmopolita.


Por outro lado, nem sempre se relaciona uma questão global à nossa rotina na cidade e à maneira como nós e as mercadorias circulamos. Entender como os transportes centrados nos motores têm aquecido as cidades e o mundo é crucial para impulsionar políticas públicas responsáveis e efetivas de combate ao aquecimento global.




As cidades aquecem


São Paulo já está fervendo. É o que alerta Marcos Buckeridge, coordenador do programa USP Cidades Globais, em entrevista recente ao UOL : “Em São Paulo já tivemos um aumento de 2ºC nos últimos 50 anos. Temos olhado reiteradamente estes dados, que podemos obter dos bancos de dados que temos sobre São Paulo e, por eles, estamos mesmo caminhando para os 3ºC”.


Isso significa que o prazo para investir em ações urbanas que possam frear as mudanças climáticas já está mais do que no limite, afinal, já estamos vivendo em uma “sauna urbana”.


Enfrentando temperaturas acima da média e problemas causados por esse superaquecimento, como secas prolongadas, falta d’água, incêndios florestais, chuvas fortes e pontuais, inundações, deslizamentos, doenças respiratórias, doenças infecciosas provocadas por insetos, entre outros problemas relacionados ao aumento da temperatura na cidade.


Onde isso me afeta?


As prospecções mostram que sofreremos as consequências de desastres ambientais cada vez mais frequentes se não encararmos as mudanças climáticas com a urgência e a seriedade que o tema demanda.


Estes fenômenos (que de “naturais” não têm nada) são resultados do nosso modo de vida. Um exemplo recente foi a seca no estado de São Paulo de 2014. Para além da limitação de acesso a água e salubridade, o que por um lado levou a reflexões sobre captação de água e uso e racionamento, o episódio agravou doenças respiratórias no estado. Problema que já ocupa o ranking entre as principais causas de morte no estado.


Segundo relatório da Associação Paulista de Medicina estado tem 31 mortes precoces por dia – em outras palavras, mortes evitáveis – geradas pela poluição do ar. Com a seca este número aumenta.


Ao crescer sem planejamento e com cada vez mais áreas impermeabilizadas – cobertas por asfalto sobre terras, matas e rios – a cidade de São Paulo sofre as consequências de, entre outros fatores, historicamente ter investido em estruturas para carros, sem priorizar o transporte coletivo e meios sustentáveis de se deslocar.


Enquanto isso, dentro de alguns dias o mundo estará com os olhos voltados para a 24ª Conferência do Clima da ONU – COP24 – em Katowice na Polônia.


Será a terceira Conferência desde que o Acordo de Paris foi criado em 2015 – onde 197 nações participam de mais uma rodada de negociações climáticas, agora com o objetivo de estabelecer mecanismos de regulamentação e implementação de suas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs), documento no qual cada nação apresenta um conjunto de ações e medidas para a redução de emissões de gases de efeito estufa (GEE) no seu país.


O que caminhar e pedalar têm a ver com isso?


Em ambientes de discussão sobre o nosso futuro são cada vez mais comuns propostas de soluções super tecnológicas mirabolantes, caras e complexas para frear as emissões de gases de efeito estufa. No entanto, precisamos chamar a atenção para uma solução urbana simples, de baixo custo e alto impacto positivo: o investimento em mobilidade ativa.



Garantir que os indivíduos nas cidades consigam se deslocar a pé e de bicicleta de maneira segura e confortável é essencial para qualquer cidade, do presente e do futuro. Além de serem os verdadeiros transportes “zero emissões”, é possível conectar esses meios de locomoção com diversos efeitos positivos associados à saúde, economia, redução de poluição, segurança pública, cidadania e qualidade de vida. Ou seja, investir em mobilidade ativa traz ganhos nos âmbitos individual e coletivo.


As emissões de CO2 (dióxido de carbono, um dos principais gases de efeito estufa) são um exemplo claro que pode ser combatido com a melhoria das formas de deslocamento.

De acordo com a pesquisa lançada recentemente pelo CEBRAP – Centro Brasileiro de Análise e Planejamento – sobre o “Impacto Social do Uso da Bicicleta em São Paulo”, por exemplo, os ciclistas são hoje responsáveis por uma redução de 3% de todo CO2 emitido com transporte na cidade e esse número poderia chegar até a 18% se as pessoas usassem mais a bicicleta em trajetos considerados ‘pedaláveis’ – trajetos de até 8km ou aproximadamente 30 minutos pedalando.


Outros trajetos que poderiam poupar emissões de CO2 poderiam ser poupadas na cidade são os deslocamentos por carro de até 2,5 km – distância considerada caminhável e que se realiza em média de 34 minutos a pé. Segundo estudo realizado pela 99app, 42% dos deslocamentos por automóvel privado em São Paulo são até no máximo esta distância, e outros 20% entre 2,5 e 5 km, outra distância possível de ser percorrida ativamente.


Ou seja, 60% dos deslocamentos realizados na capital por carros privados, emissores de CO2 e de gases poluentes, poderiam acontecer de forma sustentável e limpa.


São Paulo, o estado mais poluidor do país


Segundo dados lançados essa semana pelo Observatório do Clima, o Brasil ocupa hoje a sétima colocação no ranking dos países mais poluidores do mundo e – além do desmatamento ilegal e das atividades agropecuárias, que ainda são os principais fatores de emissões de gases de efeito estufa no país – o setor energético tem papel de destaque nesse cenário devastador, ocupando o terceiro lugar.


A energia corresponde a 21% do total de emissões e, destas, 39% estão relacionados à queima de combustíveis pelos transportes, segundo o Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG) .


A queima de combustíveis fósseis, principalmente gasolina e diesel, utilizados para deslocar pessoas e cargas é responsável pelas emissões de gases de efeito estufa que mais crescem no país, correspondendo a um aumento de mais de 20% nos últimos 10 anos.


Ainda de acordo com o SEEG, se desconsiderarmos questões de mudança de uso da terra (desmatamento, por exemplo), São Paulo é hoje o estado mais poluidor do país, seguido de Minas Gerais, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul.


Isso se deve em grande parte ao modelo de urbanização das últimas décadas, que espraia as cidades, de forma desenfreada, em direção a periferias com pouca infraestrutura e centradas em um modelo rodoviarista, ou seja, que privilegia o transporte individual motorizado.


Carros elétricos dentro das cidades não serão solução


Investir valores exorbitantes de dinheiro público em tecnologias caras e dedicadas aos veículos individuais não é solução. Mas infelizmente os tomadores de decisão parecem não ter entendido isso.


O exemplo mais recente é a aprovação, em nível federal, do projeto Rota 2030 , que concede desoneração fiscal à indústria automobilística, prevendo como contrapartida o investimento em pesquisa e desenvolvimento para criar veículos elétricos e autônomos. Entretanto o problema do transporte individual motorizado vai além da queima de combustíveis fósseis.


Carros, independente da tecnologia, ocupam muito espaço para deslocar pouca gente e mantêm o modelo de cidade onde se percorre longas distâncias, continuando assim a gastar muita energia. Por outro lado, os transportes públicos que necessitam fazem a migração de matriz energética – ou seja sair da dependência do diesel e migrar para modelos de energia mais limpa – têm legislações com prazos cada vez mais postergados e distantes e pouco incentivo ao desenvolvimento de novas tecnologias.


Para alcançar cidades mais sustentáveis é preciso urgentemente repensar toda a lógica de crescimento, urbanização e desenvolvimento. Para falar de cidades de baixo carbono é fundamental que a discussão passe pelo uso e ocupação do solo (moradia e mobilidade são faces da mesma moeda), ampliação e capilarização urgentes da rede de transportes públicos de alta capacidade (como trens, VLT’s, ônibus limpos e hidrovias) e priorização absoluta de pedestres e ciclistas dentro da matriz de mobilidade.


Não podemos esquecer que estes últimos são a base de uma cidade com uma estrutura de mobilidade urbana – ou seja centrada nas condições e qualidade dos deslocamentos e não nos veículo.


Pactos internacionais centrados nas cidades


Atualmente, mais da metade da população do planeta já vive em centros urbanos. Estamos diante de um desafio sem precedentes na história da humanidade e o esforço para reduzir emissões de gases de efeito estufa e frear o aquecimento global é parte de uma transformação profunda e necessária por e para todos nós.


Conseguir avançar exige compromissos políticos, principalmente, com a manutenção da vida na Terra com qualidade e respeito ao meio ambiente.


Neste sentido a comunidade internacional tem criado pactos, agendas e acordos em conjunto. É importante lembrar, que além do Acordo de Paris (acima mencionado) – onde o Brasil já sinalizou medidas tímidas na área de Transportes e Energia através de sua Contribuição Nacionalmente Determinada – somos signatários de outros acordos e pactos internacionais centrados no ambiente urbano, que dialogam diretamente com o estímulo aos transportes ativos.


São estes a Nova Agenda Urbana, a Década de Segurança Viária e os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Todos pactos e iniciativas da ONU e por isso considerados prioritários para as novas políticas públicas mundiais, a qual o Brasil não pode estar fora.


Para reduzir nossas emissões de gases de efeito estufa é fundamental combater o desmatamento ilegal da Amazônia mas também combater a carrodependência nas cidades brasileiras. Se não desacelerarmos, o termômetro vai subir cada vez mais rápido e de maneira irreversível.



Por Aline Cavalcante, Ana Carolina Nunes e Letícia Sabino (Sampapé)

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